domingo, 28 de março de 2010

Curso de capacitação politica da JS/PDT

A concepção do trabalhismo brizolista no século XXI





Leonel Brizola Neto1
Wendel Pinheiro2




“É preciso pensar o futuro se desejarmos ter algum.”


Mauro Zacher




A máxima acima foi concebida a partir de um texto chamado “Novos Rumos para o Trabalhismo”, de autoria do Vereador Mauro Zacher. A partir de uma série de análises, sob o pano de fundo de “atualização” das premissas e concepções trabalhistas, a sua obra vem pontuando, a partir de uma série de críticas, sobre o “anacronismo” do ideário trabalhista, frente às demandas pontuais do século XXI.


Assim, usando-se, para isso, de um breve marco teórico, a partir da rápida análise sobre a “Teoria da Reflexividade” de Anthony Giddens, Zacher utiliza-se do texto para fazer uma série de críticas ao conjunto de práticas (ditas indefinidamente e mal aplicadas como “tradição”) e concepções advogadas pelo atual trabalhismo, sem apresentar, contudo, propostas consistentes, claras e precisas àquilo que ele denomina como “novos rumos” para o trabalhismo.


Salvando o penúltimo parágrafo, numa sintética e vaga proposição sobre a Reforma Política, talvez, parte das suas proposições se encontrem nos 10 pontos postos por Mauro Zacher, nas páginas 10 e 11, sem que houvesse um maior detalhamento de cada um destes elementos. Igualmente, o cerne daquilo que o motivaria a confeccionar este documento se encontra no fim da página 7 e no último parágrafo de sua obra, onde diz que


“Na tradição política, os guardiões são costumeiramente os ‘chefes’ partidários, de quem se espera a capacidade de ‘purgar’ o partido daqueles que, por não estarem subordinados à tradição, só podem ser compreendidos como ‘ovelhas desgarradas’. Sobre estes, deve pesar a mão disciplinadora das instâncias partidárias e, no limite, configurada a ‘traição’, os que se apartam da tradição devem ser eliminados. (...)

Para tudo isso, o PDT é um projeto que também precisa ser renovado. Não há caminho melhor para isto do que a diferenciação diante da realidade vivida pelos demais partidos. Não nos interessa somente reprodução da tradição, porque ela não irá nos trazer todas as respostas que buscamos. Também não queremos que nosso partido se dilua na realidade política nacional e seja apenas mais uma sigla a ser manejada pelos interesses daqueles que procuram se manter no poder ou conquistá-lo. O PDT pode muito mais. Importa, agora, estar disposto a travar o debate e avançar.”


As críticas colocadas à estrutura interna das instâncias partidárias são o pano de fundo para os apontamentos postos por Zacher que norteiam tanto as práticas quanto a ideologia trabalhista. Sob uma aura de “renovação”, quais seriam os pontos no “neotrabalhismo pós-moderno” do parlamentar porto alegrense?


A partir de alguns tópicos, estaremos travando alguns pontos, confrontando-os, a luz da construção de conceitos e à altura dos valores basilares presentes nos documentos que regem e guiam a linha político-ideológica do PDT.



1) O confuso conceito da “tradição” do “zaquerismo”, a visão turva do trabalhismo



No decorrer do seu texto, Mauro Zacher aborda o trabalhismo não se resumindo a uma ideologia ou uma inspiração doutrinária, mas, a um vínculo emotivo e uma justificativa histórica que, por ela mesma, se inspiraria como “tradição”.


Todavia, no decorrer do texto, sentimos uma confusa visão sobre a concepção relacionada sobre a tradição na abordagem sobre o trabalhismo, fazendo, em diversos momentos, confusões teóricas insanáveis, atribuindo à mesma “tradição”, conceitos distorcidos da visão weberiana, além de confundir esta terminologia com a definição de dogma/ideologia e de liturgia/cultura política.


Tomamos para a tradição a visão weberiana, onde o Estado toma para si a idéia de domínio a partir da crença, isto é, na “santidade de ordens”. Sob uma baixa participação política, em oposição às democracias modernas, a tradição é utilizada em modelos políticos patriarcais ou, em um estágio mais avançado, nos Estados Teocráticos. O poder não é legitimado através das leis, mas da força do líder maior sobre os súditos – seja a partir de alguns atributos, tais como a sua primogenitura, ou o grau de antiguidade deste líder sobre seu clã ou tribo, ou a autoridade de viés divinal. As relações de poder seriam pessoais, onde os seus liderados deveriam sua fidelidade aos seus líderes.


A aplicação de tradição segundo o prisma weberiano, que é o mais largamente usado em trabalhos acadêmicos, não se aplica ao trabalhismo, seja porque Weber tenta explicar as formas de dominação impostas pelo Estado (a racional, a tradicional e a carismática); seja pela incompreensão conceitual zaquerista, fundindo tradição com ideologia e... cultura política!


A ideologia (ou dogma), enquanto conceito largo e aberto, passível de debates, torna-se como um conjunto de arcabouços de idéias, crenças, concepções e valores que constituem um sistema de pensamento – sejam eles de cunho político, filosófico ou teológico. É óbvio que uma linha ideológica, dada as contingências políticas, culturais e econômicas, possui a capacidade de dialogar – ao procurar responder e explicar, a partir do seu conjunto de valores idiossincráticos, todos os fenômenos sociais. Entretanto, seus valores doutrinários são imprescindíveis, ainda que aperfeiçoados – porém mantidos os pontos centrais desta ideologia, como uma série de valores, cujo objetivo é a mudança da ordem vigente, defendido por um grupo, uma instituição ou um partido.


Já a cultura política envolve os sentimentos, o comportamento, códigos de convivência e regras vividas entre a militância, os quadros teóricos e dirigentes partidários ou de fração em uma organização política, além dos valores que este grupo carrega, a partir da visão que eles possuem, seja da sua agremiação partidária ou do seu papel junto à sociedade civil e ao Estado – seja de adesão, indiferença ou mesmo de aversão ao governo ou regime vigente.


Partindo-se destes pressupostos, a ideologia política do trabalhismo sempre foi marcada a partir não apenas das experiências políticas bem sucedidas de Getúlio Vargas, João Goulart e Leonel Brizola e do pensamento formulado por Alberto Pasqualini e Darcy Ribeiro. Seus documentos, visando à análise da conjuntura política, econômica, social e cultura brasileira, estão bem presentes na Carta Testamento de Vargas, na Carta de Lisboa e no Manifesto do PDT, ainda que também se encontre subjacente na Carta de Mendes e pontualmente no Programa do PDT.


Em suma, nacionalismo, democracia popular e trabalhismo entrelaçam entre si na doutrina sustentada pelo antigo PTB pré-1964 e pelo PDT, denominada de trabalhismo. O nacionalismo se pontua a partir da defesa dos interesses constituídos na defesa do patrimônio brasileiro. Não é um nacionalismo excludente, tampouco xenófobo. Neste nacionalismo, o sentimento usual ufanista, concebido pela visão chauvinista, é substituído por um nacionalismo crítico-construtivo e transformador da própria estrutura sócio-econômica do Brasil. O nacionalismo que o trabalhismo advoga possui um caráter includente, atraindo, para si, o povo como o principal legatário do patrimônio nacional.


Incluindo o povo no ideário nacionalista, constituímos a concepção da democracia popular. Ela, em sua forma avançada, privilegia a soberania popular, sendo o povo a razão de ser e de existir da própria democracia. A democracia popular, para a ideologia trabalhista, é direta! Nela, a escolha dos representantes pelo sufrágio universal não é o fim em si, como advoga as correntes democrático-liberais, mas um meio para criar condições oportunas de justiça social e de dignificação das massas trabalhadoras – as mesmas promotoras do desenvolvimento nacional. Ilustra a concepção da democracia popular, bem inspirada ao ideário de contrato social promovida por Jean Jacques Rousseau, a máxima colocada por Leonel Brizola, no discurso da Central do Brasil, em 13 de março de 1964, quando, sob a possibilidade da existência de uma Assembléia Nacional Constituinte para a efetivação das Reformas de Base, Brizola resumiria a concepção da democracia popular, a saber:


“Se os poderes da República não decidem, por que não transferimos essa decisão ao povo, que é a fonte de todo o poder?”


Então, na democracia popular advogada pelo trabalhismo, qual é a concepção de povo?


Inspirado a partir da Carta de Lisboa, além das intervenções histórico-pragmáticas de diversos quadros trabalhistas, o povo não se resume à classe trabalhadora, delimitada pela visão tradicional marxista. Inclui-se, em uma visão avançada e, por vezes incompreendida por grande parcela da esquerda brasileira, o lumpen-proletariado, sequer considerado por Karl Marx, no Manifesto Comunista, como integrante do proletariado, isto é, da própria classe trabalhadora.


Quem seria, então, este personagem?


O lumpen-proletariado se constitui em subempregados, desempregados, os marginalizados e os que vivem abaixo da linha da pobreza. São a todos estes, dentro de um sentido cristão includente, que o trabalhismo brizolista avança explicitamente, através da Carta de Lisboa, concebendo-os como partícipes de um projeto nacional, na condição de povo. Ou seja, lumpen-proletariado e classe trabalhadora estão juntas, no constructo de um projeto chamado BRASIL!


Logo, o conceito de lutas de classe, tão presente no marxismo clássico, possui uma leitura inovadora e transformadora, através do trabalhismo, rumo ao socialismo-democrático. Nele, o povo tem voz e vez!


O trabalhismo, na visão democrático-popular, insere os segmentos acima descritos na condição de POVO, causando choque e incompreensão a muitos setores da esquerda brasileira que, inconformados com o marco teórico posto pelo trabalhismo, a partir de sua visão empírica sobre a realidade sócio-política brasileira, denominem pejorativamente todos os quadros trabalhistas e a própria ideologia carregada pelo PDT e pelo PTB pré-1964 como populista.


Assim, incluindo, na condição de povo, o lumpen-proletariado, a partir de setores marginalizados como as maiorias minorizadas (mulheres, negros, nordestinos, índios), o trabalhismo, sob o axioma da Carta de Lisboa, define bem a luta de classes a partir de um princípio inexorável, onde


“Neste particular e dentro de um horizonte que não é absolutamente cristão, mas marcado por um capitalismo impiedoso, impõe-se a nossa defesa constante dos pobres contra os ricos, ao lado dos oprimidos contra os poderosos. (...) Porque damos importância central ao nosso povo como sujeito e criador do seu próprio futuro, sublinhamos o caráter coletivo, comunitário e não individualista da visão Trabalhista.”


Fechando, a compreensão sobre o trabalhismo, a partir das duas vertentes, tais como nacionalismo e democracia popular, é uma vertente ideológica que privilegia o trabalhador como alvo não apenas do seu discurso, mas das políticas públicas e ações governamentais direcionadas ao trabalhador. A linha política varguista e janguista se pautaria neste vetor, inserindo, também, o trabalhador rural, contemplando-o nas Reformas de Base, a partir da defesa intransigente de uma Reforma Agrária que o incluísse como ator central e beneficiário.


A cultura política trabalhista se dá a partir do valor dado a partir do resgate histórico dos adeptos do trabalhismo às ações governamentais e políticas dos quadros trabalhistas, além dos símbolos tão presentes não apenas no imaginário da militância, mas do conjunto de signos políticos. CLT, as Reformas de Base, os CIEP’s, a Previdência Social, voto secreto, a Campanha da Legalidade, dentre tantas marcas introduzidas pelo trabalhismo.


Logo, ignorar as transformações e as vivências sentidas pelos correligionários significa desconstruir o capital de conquistas e experiências vividas por estes militantes, através do trabalhismo. Pior: a própria cultura política que todos nós, trabalhistas, carregamos.


Por tais marcas, o capital de mudanças sociais trouxe a tais pessoas o reconhecimento e a dignificação, através da perpetuação deste conjunto de símbolos e marcas na memória de quadros, dirigentes e militantes, formando a cultura política de todos os trabalhistas – ainda que destituídos de uma mínima formação ideológica e utilizando, para si, os sentimentos de gratidão e de devoção às conquistas políticas promovidas pelo trabalhismo.


Assim, a partir das análises acima postas, pouco ou nada explica a definição turva, confusa e sem grande capital teórico a parca explicação de Mauro Zacher sobre a concepção de tradição. Entendem-se mais as assertivas do parlamentar gaúcho, partindo-se do pressuposto de que este quadro quer marcar uma posição política, ainda que, para isso, sacrifique teoricamente o exíguo subsídio teórico que ele tenta explicar uma possível realidade política do PDT.



2) Diferente da atual produção e visão historiográfica progressista, o trabalhismo brizolista, para Zacher, é, em outras palavras, anacrônico



Sob o enfoque da “tradição”, as contínuas críticas de Zacher se dão, em linhas gerais, a partir da incapacidade do trabalhismo dialogar com as demandas presentes no século XXI. Embora seja motivo de orgulho ao autor as conquistas históricas do trabalhismo, a ideologia carregada pelo PDT não conseguiria dar conta da agenda presente, neste “processo de modernização”.


Segundo Zacher, as possibilidades emancipatórias neste processo que o trabalhismo não daria conta de resolvê-los estariam em três itens, sendo eles o aumento da condição moderna, explicada por Anthony Giddens, chamado de “reflexividade”, a oferta maior de produção e/ou acesso à informação e de articulações políticas via Internet e a formação de novas identidades políticas e novos movimentos sociais, fugindo à definição clássica das classes sociais ou agrupamentos profissionais.


Todavia, dentro da perspectiva histórico-ideológica trabalhista, Zacher não procura, de forma eficaz, apresentar as soluções aparentemente “insolúveis” ao que tem passado o PDT.


Como inserir o trabalhismo, dentre os problemas aparentemente “intransponíveis” entre a ideologia carregada pelo PDT e o mundo do século XXI, na sociedade da informação, onde existem articulações políticas cada vez maiores no mundo virtual, conforme ressaltado por Mauro Zacher em sua obra?


Ora, esta realidade, embora existente e crescente, ainda não inclui os milhões de analfabetos digitais. O mundo pós-moderno de Zacher é fora da realidade de um enorme contingente de brasileiros. Talvez isso tenha sido um dos fatores para explicar a derrota improvável de Fernando Gabeira no 2º turno, concentrando a sua campanha virtual em torno dos que obtinham acessos – em especial, localizados na Zona Sul e na Grande Tijuca.


Mesmo com políticas democratizantes do Governo Lula no acesso à internet, todavia, em 2007, apenas 39 milhões de brasileiros tinham a possibilidade de obter contato com o mundo virtual.


Em suma, um mundo ainda distante da possibilidade de muitos cidadãos...


Enfim, que “novo” trabalhismo que Zacher propõe? Um trabalhismo conivente com a sociedade pós-moderna, que descaracteriza o antagonismo de classes? Quais seriam os itens que norteariam o “neotrabalhismo pós-moderno”?


O item que mais ilustra a proposição do zacherismo é o “Um mundo plural”. Seguindo o processo de direitização ideológica, seguido desde o XIII Congresso Nacional da JS-PDT em 2007, há uma adaptação das conceituações trabalhistas aos desafios impostos no início do século XXI. Sob a suposta necessidade de responder à altura as discussões propostas por uma parcela considerável das correntes juvenis da esquerda brasileira, há o fracionamento das lutas em outras frentes.


Em outras palavras, abdica-se dos conceitos clássicos do pensamento marxista ou mesmo, do trabalhismo progressista, desfazendo a idéia da luta de classes, com o antagonismo entre as elites e a massa trabalhadora (ou o povo, na perspectiva trabalhista), colocando a classe trabalhadora dentro de um nicho ou gueto, dentre tantos outros, como os homossexuais, pacifistas, evangélicos, judeus, negros, movimento feminista, ONGuistas, dentre outros grupos minoritários de interesse. A partir da exacerbação da “política de direitos”, incentiva-se o “direito à diferença”, destruindo não apenas as concepções, mas a própria unidade popular em torno da defesa da soberania nacional.


A concepção do liberalismo no campo filosófico-moral e o agravamento na relativização dos conceitos, doutrinas, paradigmas e valores, chegando ao subjetivismo, são o norte da pós-modernidade do século XXI. No campo político, são as Organizações Não-Governamentais, a partir da iniciativa individual ou de um pequeno grupo, que descredenciam o papel do Estado em promover o bem-estar à coletividade. O descrédito aos partidos políticos e às organizações de massas e a livre-organização de movimentos minoritários, em discursos de teor apartidarizado e/ou apolítico, faz parte da cultura política dos novos “guetos”, presente no mundo pós-moderno do século XXI.


Perde-se, a partir destes movimentos minoritários, o ideário de unidade popular e nacional. O caráter holístico e o perfil includente se perdem em movimentos de cunho, por vezes, sectário e policlassista, escondendo, em uma “cortina de fumaça”, o fosso da desigualdade sócio-econômica e da contradição entre as classes. Um dos efeitos da pós-modernidade, ao negar a bipolaridade das classes, reside na fala de Mauro Zacher, onde menciona que


“A própria classe operária, concebida por Marx como verdadeiro sujeito das transformações sociais e que deveria se universalizar pelo próprio desenvolvimento do modo de produção, se tornou minoritária em todos os países capitalistas e viu seu peso político declinar de forma irreversível.

A almejada unidade política dos trabalhadores, por outro lado, tornou-se meta tão irreal quanto o pressuposto da unidade das classes dominantes que lhe oferecia justificativa em uma perspectiva de ‘luta de classes’. As sociedades contemporâneas de mercado são, concretamente, muito mais plurais do que boa parte da esquerda foi capaz e se move por contradições que extrapolam em muito os antagonismos entre capital e trabalho. Assim, se é evidente que a ‘fratura’ entre capital e trabalho segue operando efeitos não desprezíveis no mundo contemporâneo, é necessário reconhecer que muitos dos tensionamentos políticos que marcam nossas sociedades e mesmo muitos dos desafios a serem enfrentados em nossa agenda política se estruturam a partir de outras dinâmicas, tão ou mais importantes.”


Em suma, este é o argumento “teórico” colocado por Mauro Zacher, dado a “complexidade” do capitalismo do século XXI, desconsiderando, no entanto, o princípio nevrálgico e clássico que todas as correntes progressistas, marxistas ou não, fazem alusão direta ou subjacente: o da luta de classes. Sem incluir os 10 pontos de transformação no “neotrabalhismo pós-moderno” de Zacher, em grande parte deles já presentes no capital histórico-político trabalhista, a impressão parte do desconhecimento do autor aos valores que norteiam o trabalhismo, a partir dos documentos históricos basilares que regem a linha político-ideológica do PDT.



3) A atualidade do “velho” trabalhismo brizolista



Longe de qualquer visão de teor anacrônico, é possível afirmarmos que o trabalhismo confunde-se com a História da Democracia Brasileira. Ou seja, a História do Brasil Contemporâneo possui marcas inequívocas do trabalhismo. Marcas que inclusive forças avessas ao PDT, como o PT e, em menor escala, o PCdoB, seguem, a partir não apenas de suas políticas públicas, mas de suas pontuações ideológicas. Inclusive, correntes dissidentes pós-modernas do PT, de vertente trotskista como o PSOL3, PSTU e até o PCO, dentro do seu campo teórico, apontam algumas linhas de âmbito em encontro com os valores históricos do trabalhismo brasileiro.


Vale à pena, dentre inúmeros exemplos, citar ao menos as deliberações políticas mais recentes de partidos de esquerda alheios à ideologia trabalhista. Partidos que, mesmo seguindo a agenda da pós-modernidade, se posicionam, em momentos cruciais, na defesa das bandeiras que o trabalhismo advogou para si, desde a fundação do PTB, em 1945, até hoje, com o legado herdado pelo PDT.


Dentre alguns documentos recentes de outros partidos, existem algumas resoluções do PT em 2009, afirmando, em muitos momentos, a premissa de elementos do nacionalismo e do trabalhismo. Resoluções do Diretório Nacional do PT, como a de 10 de fevereiro de 2009, com o tema “É hora de aprofundarmos as mudanças e de fazer o embate ideológico”4 e a de 17 de setembro de 20095, na defesa do pré-sal, são alguns dos marcos que evidenciam a atualidade do nacionalismo-trabalhista na agenda política nacional.


Igualmente, o 12° Congresso Nacional do PCdoB pauta sua temática, em diversos momentos, a partir de sua agenda nacional e popular, evidenciando muitos itens do trabalhismo, no seu documento “Programa Socialista para o Brasil - O fortalecimento da Nação é o caminho, o socialismo é o rumo!”, feito em 03 de julho de 20096.


Dada a atualidade do trabalhismo, incluindo o pioneirismo bem-sucedido das políticas públicas, onde outros partidos não assim o fizeram, desde Vargas, não há quaisquer razões sólidas ou consistentes para o questionamento de Mauro Zacher. Políticas de Seguridade Social e proteção ao trabalhador urbano e rural, além da ampliação dos direitos políticos, sociais e civis às mulheres e aos negros, além de uma visão progressista no âmbito da política de segurança pública, baseada nos direitos humanos; Reforma Universitária – incluindo, neste ínterim, as proposições não apenas de Darcy Ribeiro, mas de quadros da antiga Mocidade Trabalhista presentes na UNE do início da década de 1960 –, dentre outras políticas públicas, foram as conquistas do trabalhismo, reconhecidas pelo povo brasileiro até hoje. Isto, sem incluir a criação da PETROBRAS, da Eletrobrás, da CSN, da Vale do Rio Doce e de outras empresas estratégicas à construção de um projeto nacional-desenvolvimentista.


Por exemplo, a Reforma Política, tão aludida por Zacher em seu texto, além de alardeada pela mídia e pelos diversos partidos – com o intuito de assegurar não apenas a lisura das eleições, mas o fortalecimento das instituições democráticas e dos partidos –, foi originada com Vargas a partir da criação da Justiça Eleitoral. Igualmente, a criação do voto secreto e a democratização do acesso não apenas ao direito de voto à mulher, mas de ser votada também, são avanços ímpares do trabalhismo varguista. Com Jango, a proposição da ampliação do direito ao voto para os analfabetos e a extensão da capacidade eleitoral passiva aos praças das Forças Armadas foi um dos fatores que justificariam, para os grupos liberal-conservadores, a necessidade de um golpe civil-militar, em 1964. Depois, a partir dos avanços tecnológicos, Brizola foi a voz isolada e visionária, ainda em meados ao fim da década de 1990, na defesa da lisura do processo eleitoral através da impressão da urna eletrônica7, salvaguardando a escolha democrática do eleitor, sem que voltasse ao retrocesso promovido nas eleições da Primeira República.


Ainda não explicitando uma análise profunda no âmbito da Reforma Política, limitando-se a um parágrafo curto8, colocando suas pontuações gerais sem maiores explicações, não há, no decorrer do documento de Zaquer, maiores aprofundamentos específicos sobre os dez pontos restantes. Pontos confundidos inclusive com políticas públicas pontuais, que em momento algum conflitam com um sistema tão perverso e desigual que o trabalhismo sempre pontuou. Entre agendas de vertente policlassista e de viés liberal, presentes na vala comum de grande parcela da esquerda brasileira sem rumo ideológico, Mauro Zacher quer propor a leitura de um neotrabalhismo pós-moderno que, em uma visão tecnocrática e cartesiana de partido, ignora a cultura política cultivada pelos trabalhistas. Enfim, a aposta de Zacher em uma “nova” leitura política sequer é seguida constantemente pelos partidos da esquerda pós-moderna.


Logo, quando à direita tucano-democrata, através da linha liberal-conservadora, investe em uma sanha histérica antinacionalista e privatista, são os mesmos partidos de esquerda, com visão liberal e pós-moderna, que abraçam com veemência as teses do nacionalismo e do trabalhismo – via soberania nacional e democracia popular, a partir de um discurso progressista e nacional-desenvolvimentista.


Assim, muito nos estranha a necessidade de “modernização” de um “neopasqualinista” do século XXI, dando calafrio não apenas a Alberto Pasqualini, mas a muito trabalhista histórico vivo até hoje! Pior: particularmente, estranha mais ainda que a abordagem heterodoxa surja de um parlamentar oriundo de um estado que foi e é o berço do trabalhismo brasileiro – o Rio Grande do Sul. E o que nos assusta mais ainda é que o defensor destes princípios seja o líder da bancada do PDT na Câmara Municipal de Porto Alegre, cidade de onde Leonel Brizola foi Prefeito.


Cabem a nós, trabalhistas, uma análise pungente, ponderada e construtiva, das nossas crenças ideológicas e dos valores que carregamos. Se o texto do Vereador Mauro Zacher teve alguma serventia, foi para apontar, de forma incisiva, o quanto é possível ver que determinados quadros parlamentares, ditos trabalhistas, sequer são capazes de identificar minimamente não apenas o arcabouço ideológico, mas o caráter identitário de lutas e conquistas que o trabalhismo travou historicamente, em defesa dos interesses nacionais e populares, e que continua vivo até agora!


Faltou CIEP para esse cidadão...

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